VAGÃO CULTURAL – A LUTA
A história do combate entre Ali e Foreman no coração da África
Por Fabio Toledo
Foto: Getty Images
Embora o boxe fosse um esporte popular há muito tempo – há indícios de que os sumérios, na antiga Mesopotâmia, praticavam uma modalidade semelhante, por volta de 2.000 a.C. –, ele encontrou na década de 1970 uma época decisiva para se tornar mais que um esporte, um elemento da cultura pop global. Afinal, foi nesse período que rivalidades importantes afloraram. A maior parte delas, como não poderia ser diferente, envolviam Muhammad Ali.
O autointitulado “maior boxeador de todos os tempos” – e possivelmente, de fato, o maior de todos os tempos – não era apenas um super atleta. Seus mais de 1,90 m, longa envergadura e qualidade atlética era tão destacável quanto a sua personalidade forte. Além de provocador diante de seus adversários, desafiou a ordem norte-americana ao recusar servir como soldado na Guerra do Vietnã, levando-o a perder os cinturões de campeão dos pesos-pesados do Conselho Mundial de Boxe e da Associação Mundial de Boxe e ser suspenso dos ringues por três anos.
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Quando pode voltar a lutar, Ali desenvolveu a histórica rivalidade com Joe Frazier. Teve chance de recuperar os títulos perdidos, mas acabou derrotado por Joe em março de 1971. Três anos depois, Ali empatou a disputa com Frazier, mas os cinturões mundiais não estava em jogo. Isso porque o “Smoking Joe” não detinha mais os títulos, pois foi derrotado por um novo fenômeno do boxe: o invicto George Foreman, com 40 vitórias em 40 combates. É aqui que começa a história de A luta, livro que conta em detalhes tudo que passou no confronto entre Ali e Foreman.
Da vitória sobre Frazier até o duelo contra Foreman, Ali teve nove meses para se preparar. Parte dessa preparação ocorreu em Deer Lake, pequena cidade da Pennsylvania onde Ali montou seu famoso campo de treinamento, enquanto que a parte final aconteceu no local da luta. No coração da África, a recém-proclamada República do Zaire, comandada pelo ditador Mobutu Sese Seko, recebeu o duelo. O caráter exótico da localidade permeia a história, narrada pelo jornalista e escritor Norman Mailer.
Mailer e Ali | Foto: Reprodução
Vencedor de dois Prêmos Pulitzer, Mailer trabalha o relato em seu livro como uma descrição em terceira pessoa de suas experiências na cobertura da luta – o que deixa o texto com um caráter mais literário, pois vai além da objetividade para falar do combate e seus meandros. A luta mostra o contato de Mailer com Ali e sua comitiva, as diferenças físicas e de comportamento entre os lutadores, o que cada um deles representavam naquela época (por exemplo, Ali provocava Foreman chamando-o, entre outras coisas, de branco com pele negra).
Há também espaço para aventuras do jornalista em Kinshasa, capital do Zaire (hoje República Democrática do Congo), como seu contato com a filosofia Bantu, uma corrida matinal com Ali, a situação do país em meio à ditadura de Mobutu, além, é claro, dos bastidores da luta. Mailer acompanhou de perto os preparativos de Ali pra o combate, estando dentro de seu vestiário nos minutos que antecederam o chamado “Rumble in The Jungle” – “estrondo na selva”, em tradução livre –, ricamente contado na parte final da obra.
Na literatura esportiva, A luta é um dos clássicos. Poucas são as produções que relatam os bastidores de um combate como esta. Ainda mais um confronto tão icônico e de grande representatividade para a história do boxe, que marcou a década de 1970 e levou a modalidade a ganhar um caráter global.
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O livro
A LUTA
Autor: Norman Mailer
Editora: L&PM
Ano de lançamento: 1975
Páginas: 272
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